Carta enviada ao MEC sobre o programa Ensino Médio Inovador
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Postado pôr: Paulo Roberto Fitz
http://tecnociencia.inf.br/tecnico/fitz
Tuesday, 26 May 2009

Há alguns dias tomei conhecimento de seu Programa Ensino Médio Inovador.  Num primeiro momento, até que achei a ideia interessante, imaginando como se daria uma aula de Geografia, onde poderiam trabalhar juntos, por exemplo, um professor de História e outro de Biologia ou de Literatura explorando aspectos diversificados, numa ação integradora. 

Entretanto, após “acordar” lembrei-me: estou no Brasil, mais precisamente no Rio Grande do Sul, onde aulas são ministradas para turmas de diferentes níveis, com mais de 50 alunos em sala, em containers, com professores, cujo salário é empregado para despesas mínimas de sobrevivência - pois ganhos maiores poderiam significar a bancarrota das finanças do Estado, de acordo com nossa governadora - que são ameaçados de morte em pleno recinto escolar.  Além disso, as aulas de Geografia (minha formação) quando existem, são muitas vezes ministradas por profissionais formados em História, Filosofia, ou mesmo, Física...

Fico pensando no restante do Brasil...  Imagino a ideia aplicada no sudeste, tido como exemplo de desenvolvimento para o país.  Em meus devaneios, vejo uma aula numa escola periférica carioca ou paulista, onde um historiador trabalha a vinda da corte portuguesa, em 1808, em conjunto com o professor de Geografia que relaciona esta questão com o princípio de uma estruturação urbana no país.  Neste instante, um professor de língua portuguesa faz alusão aos diferentes tipos de linguagem da época e de hoje.  Os participativos alunos, encantados com os ensinamentos dos mestres, discutem formas de atuação em suas comunidades e, porquê não, em países pobres, que não possuem a estrutura que nós, “altamente desenvolvidos”, dispomos.  A partir daí, os alunos consultam sites em seus notebooks - doados pelo governo - buscando informações para sugerir alternativas para os mais necessitados...

Ora bolas!  Onde estamos?  Em que país?  Em que mundo?

Os reflexos desta ideia já podem ser sentidos por aqui.  Em minha instituição, algumas licenciaturas tiveram cancelados seus processos de ingresso para o período 2009/2, o que poderá levar ao fechamento dos cursos.  A Secretaria de Educação do RS já está se organizando para acabar com as disciplinas de Geografia e História, num retorno ao antigo “Estudos Sociais”.  O mesmo vale para Física, Matemática, Química e Biologia, no retorno das “ciências”.  O que tem isto de INOVADOR?  É um retrocesso, a volta dos tempos de regime militar...

Estarei sonhando ou esta é a realidade?  Vejam só a notícia extraída do jornal Zero Hora:

“05/05/2009 - ZERO HORA (RS)
SEC agrupará disciplinas em quatro áreas
Mudança seria implantada na rede estadual já no próximo ano letivo

A Secretaria Estadual da Educação trabalha para implantar já no próximo ano letivo uma reorganização da forma como os conhecimentos são trabalhados nas Escolas. Conforme a secretária Mariza Abreu, o ensino teria como base quatro grandes áreas do conhecimento, em lugar da divisão em disciplinas que vigora no ensino médio e nas séries finais do ensino fundamental.
O próximo concurso público para o magistério, que pode ocorrer ainda neste ano, selecionaria docentes para as áreas, e não mais para disciplinas específicas. Um mesmo professor, por exemplo, lecionaria assuntos de química, física e biologia, que estariam incluídos em uma das quatro áreas, a das Ciências da Natureza.”

Perdoem-me, mas preciso perguntar:  onde a SEC vai conseguir este “super-professor” que consegue abarcar conhecimentos tão distintos?  Será que existe um “super-curso” que eu ainda desconheço?  Será que é em EAD?  Qual será o salário deste profissional?  Será o piso nacional que nossa governadora sequer quer pagar?

Que maluquice é esta???  O que o MEC pretende???

Espero não ser mal compreendido  na realidade espero estar completamente equivocado a respeito do referido programa  mas não posso mais calar-me frente a tamanho descalabro para com o ensino.  Realmente dá vontade de desistir de tudo, de largar a carreira profissional...

Prof. Paulo Roberto Fitz.

 

Comentários
Olá a todos!
GNMilasi 2010-02-21 19:26:24

O Prof. Paulo Roberto Fitz está coberto de razão, é um paradoxo o que querem fazer. No caso da minha cidade (Natal/RN), conheço Professores do Ensino
Fundamental que nunca tiveram contato com computadores, o que dirá de seus alunos que na maioria das vezes vão à escola não para aprender, mas sim por conta
da Merenda Escolar, isto quando a verba da Merenda Escolar não é afanada pelo Diretor da Escola!
Enfim, toda essa história do MEC soa como uma
alucinação!
Abraços!
ruanmagrayver 2009-08-04 23:26:49

Olá a todos!
Bom... Li atentamente o desabafo de nosso amigo Paulo e também a resposta de todos aqui, e concluo que Paulo realmente está certo em relação
a tudo isso. Eu moro em Dourados MS, e a realidade das escolas públicas aqui e em todo o país realmente são precárias. Como fazer com que essas ciências se
unam de uma vez só sem profissionais capacitados para isso? Realmente, na minha opinião, estão tomando uma decisão extremamente precária, sem pensar no que
pode acontecer com tudo isso. Imagine você como aluno de um professor despreparado para lidar com essa mudança, provavelmente não entenderia muita coisa não
é mesmo?
Agora procure imaginar então você sendo o professor nessa situação, achar um mecanismo para ensinar seus alunos tudo que lhe deve ser ensinado,
sem possuir o conhecimento necessário para tal assunto. Por mais que essas matérias tenham relações afins, ainda é difícil aprender tudo para ensinar os
alunos.

Na minha opinião deve antes de tudo existir uma graduação que prepare profissionais para essas áreas de ensino, mas nao separadamente, e sim, de
uma maneira completa para que eles possam tornar-se profissionais responsavel e capazes de ensinar esses alunos.

A idéia de nosso amigo Enzo é boa.
Através de softwares educativos. Mas tem que ver primeiramente se esses computadores serão realmente redirecionados aos alunos, e saber mais ainda, se isso
realmente é viável para as instituições de ensino. Poderiam muito bem precisar é de uma reforma nas escolas ou qualquer outro tipo de necessidade. Sei que
computadores são essenciais muitas vezes para o ensino, mas também, o que mais importa é as condições em que a instituição se encontra para que seja
realizado um ensino melhor. Com uma estrutura melhor e materiais suficientes para que sejam passados aos alunos.

Bom, acho que já está bom não é?

rsrs

Boa sorte a vocÃ?s de RS c...
certo...
enzoe 2009-08-04 22:51:03

Certo Paulo, a comunidade tambem agradece o seu apoio, continue assim.
Abraços.
Respondendo ao Prof. Paulo Roberto
Carlos Artexe Simões 2009-07-01 06:41:51

Prezado Professor
Li com atenção seu texto e gostaria de fazer um comentário referente ao Programa Ensino Medio Inovador. Ontem o Conselho Pleno do CNE
aprovou por unanimidade o merito e a relevância do programa. Convido-o a ler o parecer aprovado pois em nenhum momento se cogita o fim das disciplinas, mas
pelo contrario a fortalece e apresenta a "antiga" e importante questão pedagógica da interdisciplinalidade e a superação da posição conservadora
da fragmentação dos conhecimentos.]Saudações
comentários
Paulo Roberto Fitz 2009-08-04 22:13:28

Pessoal:
Agradeço os comentários tecidos desde a publicação de meu "desabafo". Conforme msg hoje (01/07)recebidas e em especial a do Carlos
Simões, gostaria de reforçar minhas preocupações: mesmo que a proposta do CNE seja interessante (muitos pontos o são), acho dificílima sua aplicação.
Alguns motivos já foram explicitados em meu texto inicial. Li um parecer encaminhado (não sei se foi o aprovado) e este fala em "computadores portáteis
para os professores e alunos"... Quem trabalha em escola estadual sabe que muitas vezes sequer há giz disponível. Volto a perguntar: em que país estamos?
Será que o Sarney vai distribuí-los? Ou nossa secretária da educação? Quem sabe a Yeda? Assim, as distorções persisitirão: aulas em containers
continuaram a existir (e isto ocorre aqui no RS, imaginem no interior do Piauí); o salário dos profs. continuará a ser o menor possível; para as escolas
privadas, o melhor, para as públicas, o que "sobrar". � o mesmo caso que certo professor disse-me sobre a saúde: para o rico, Golden Cross, Unimed
etc.; para o pobre, as filas do SUS...
Seu desabafo quanto a docência
Edwillian Maia 2009-06-26 18:32:42

Lute enquanto houver forças. Instrua cidadãos que lutem por seus direitos. Procure apoio estrangeiro como ongs. Envie e-mails para seus políticos locais com
cópias para as rádios e tvs.
Espero ter ajudado.
"Ainda que falasse a lingua dos anjos, sem amor, nada seria."
Isso é Brasil!
Vânia Santos Figueiredo 2009-06-07 23:12:53

Que bom que mais pessoas começam a acordar sobre a medida absurda que o MEC quer nos impor. Essa luta não é apenas dos professores mais de todos nós que
formamos esta sociedade, não podemos apenas observar os descasos que é dada a educação dia após dia, pois isso se revela na violência e entre outras
tantas coisas. Vamos discutir e lavar para escolas fazer pressão junto ao MEC.
Obrigada Prof. Paulo Roberto Fitz, compartilho com as suas
angústias.
Saudações agebeanas!
Absurdo
enzoe 2009-08-04 22:34:46

Realmente é um completo absurdo.

Mas penso que ao invez de somente criticar, os profissionais da area da educação devem tentar alguma abordagem pra parar
com esse absurdo, dito "retrocesso" do ensino.

Talvez se os professores tentarem fazer greves, reclamar, exigir, reivindicar, e de preferencia
oferecer alguma sugestao de como resolver o problema de outra forma, talvez isso ja resolva parte do problema.

Na minha opiniao, eu faço a sugestao de usar
a tecnologia, computadores pra melhorar o ensino...
A idea é que todos os planos de aulas, tecnicas de ensino, metodologias estariam aplicadas em um software
pratico e facil de usar, e isso, de certa forma iria aliviar quase todo o peso/pressao que está sobre o professor. Com todo o conhecimento já moldado e
formatado no computador, de forma que todo o conteudo de cada materia estariam divididas em varios modulos de aulas que caberiam em 40 minutos de tempo de aula,
isso iria garantir um bom controle do ensino, qualidade, e tambem padronização do ensino. Bom, sem duvida, se o professor quiser complementar o que fosse
passado pelo software, ele tambem poderia fazer isso, caso se sobrar tempo tambem. ;-)

Abraços pessoal.
Retrocesso
Bernardo 2009-05-29 14:39:24

Fitz, indignação compartilhada!

Realmente é um retrocesso, enquanto o ensino superior se ramifica
em vários novos cursos dentro de mesmas áreas de
conhecimento,
como nas engenharias onde temos vários cursos derivados de outros,
o ensino médio se fecha dentro das ciências.
Quando se coloca
políticos na área técnica ou técnicos bitolados na
política, o resultado é sempre o mesmo: produção de merda.

Bernardo
Absurdo
Victor Nedel 2009-05-29 10:12:14

Concordo plemente com o Prof. Fitz. Isso é uma enorme absurdo, pois não há, de maneira alguma, possibilidade de se efetuar as referidas mudanças, haja vista
o tamanho retrocesso que haverá em nossa sociedade acadêmica, científica e cultural. Ainda mais, pelos alunos, que terão sua formação estratificada, em
ditos 'grupos', o que nada mais é que CORTE, sim, CORTE de professores!
Envergonhadora política!!!
parabéns Fitz
Leonardo Lemes 2009-05-28 19:32:37

Se todos os profissionais da educação pensassem como o professor Fitz, a educação seguiria outros rumos.Tua indignação é a minha. Parabéns Fitz!
Política?...!
Lucas Cygainski 2009-05-28 17:05:07

Eu chamo isso de políticas públicas porcas. Deixa-se a base da sociedade à mercê. Nem parece que nossa governadora foi professora...
Quem são eles? Quem
eles pensam que são?
Não ao retrocesso!!!!
Paula Domingues 2009-05-28 15:55:57

Bom, se quisermos melhorar a educação do Brasil para assim termos um país desenvolvido (sem educação jamais isso será conseguido) com certeza este não é
o caminho!!! Sou acadêmica de Geografia e lhes garanto, o ensino em sala de aula é uma base, precisamos de muitas leituras, estudos , pesquisas se quisermos
ensinar corretamente nossos alunos. E também me fiz esta pergunta: Como eu, Paula, daria uma aula de História sendo minha preparação de Geografia?????

Absurdoooo!!! Com certeza é mais uma maneira de "avacalhar" com o ensino!
Sou totalmente contra esta unifica~ção, e como o meu professor citou
acima, isto será um RETROCESSO na educação brasileira!!!!

Paula Domingues
AcadÃ?emica do curso de Geografia - Unulasalle/Canoas/RS
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