|
Há alguns dias tomei conhecimento de seu Programa Ensino Médio Inovador. Num primeiro momento, até que achei a ideia interessante, imaginando como se daria uma aula de Geografia, onde poderiam trabalhar juntos, por exemplo, um professor de História e outro de Biologia ou de Literatura explorando aspectos diversificados, numa ação integradora.
Entretanto, após “acordar” lembrei-me: estou no Brasil, mais precisamente no Rio Grande do Sul, onde aulas são ministradas para turmas de diferentes níveis, com mais de 50 alunos em sala, em containers, com professores, cujo salário é empregado para despesas mínimas de sobrevivência - pois ganhos maiores poderiam significar a bancarrota das finanças do Estado, de acordo com nossa governadora - que são ameaçados de morte em pleno recinto escolar. Além disso, as aulas de Geografia (minha formação) quando existem, são muitas vezes ministradas por profissionais formados em História, Filosofia, ou mesmo, Física...
Fico pensando no restante do Brasil... Imagino a ideia aplicada no sudeste, tido como exemplo de desenvolvimento para o país. Em meus devaneios, vejo uma aula numa escola periférica carioca ou paulista, onde um historiador trabalha a vinda da corte portuguesa, em 1808, em conjunto com o professor de Geografia que relaciona esta questão com o princípio de uma estruturação urbana no país. Neste instante, um professor de língua portuguesa faz alusão aos diferentes tipos de linguagem da época e de hoje. Os participativos alunos, encantados com os ensinamentos dos mestres, discutem formas de atuação em suas comunidades e, porquê não, em países pobres, que não possuem a estrutura que nós, “altamente desenvolvidos”, dispomos. A partir daí, os alunos consultam sites em seus notebooks - doados pelo governo - buscando informações para sugerir alternativas para os mais necessitados...
Ora bolas! Onde estamos? Em que país? Em que mundo?
Os reflexos desta ideia já podem ser sentidos por aqui. Em minha instituição, algumas licenciaturas tiveram cancelados seus processos de ingresso para o período 2009/2, o que poderá levar ao fechamento dos cursos. A Secretaria de Educação do RS já está se organizando para acabar com as disciplinas de Geografia e História, num retorno ao antigo “Estudos Sociais”. O mesmo vale para Física, Matemática, Química e Biologia, no retorno das “ciências”. O que tem isto de INOVADOR? É um retrocesso, a volta dos tempos de regime militar...
Estarei sonhando ou esta é a realidade? Vejam só a notícia extraída do jornal Zero Hora:
“05/05/2009 - ZERO HORA (RS)
SEC agrupará disciplinas em quatro áreas
Mudança seria implantada na rede estadual já no próximo ano letivo
A Secretaria Estadual da Educação trabalha para implantar já no próximo ano letivo uma reorganização da forma como os conhecimentos são trabalhados nas Escolas. Conforme a secretária Mariza Abreu, o ensino teria como base quatro grandes áreas do conhecimento, em lugar da divisão em disciplinas que vigora no ensino médio e nas séries finais do ensino fundamental.
O próximo concurso público para o magistério, que pode ocorrer ainda neste ano, selecionaria docentes para as áreas, e não mais para disciplinas específicas. Um mesmo professor, por exemplo, lecionaria assuntos de química, física e biologia, que estariam incluídos em uma das quatro áreas, a das Ciências da Natureza.”
Perdoem-me, mas preciso perguntar: onde a SEC vai conseguir este “super-professor” que consegue abarcar conhecimentos tão distintos? Será que existe um “super-curso” que eu ainda desconheço? Será que é em EAD? Qual será o salário deste profissional? Será o piso nacional que nossa governadora sequer quer pagar?
Que maluquice é esta??? O que o MEC pretende???
Espero não ser mal compreendido na realidade espero estar completamente equivocado a respeito do referido programa mas não posso mais calar-me frente a tamanho descalabro para com o ensino. Realmente dá vontade de desistir de tudo, de largar a carreira profissional...
Prof. Paulo Roberto Fitz.
|