| Tendências culturais: Características da Pós modernidade |
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Postado pôr: Gilmar Zampieri http://tecnociencia.inf.br/tecnico/gilpieri |
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| Friday, 17 October 2008 | |||||||||||
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Cada época histórica produz seus mitos, isto é, um conjunto de crenças, conscientes ou inconscientes, com as quais se propõe explicar a totalidade do real e regular os comportamentos humanos. O nosso tempo está prometendo enterrar alguns desses mitos e fazer ressurgir outros. Esta problemática hoje vem sendo discutida comumente sob o conceito de crise da modernidade e emergência da pós‑modernidade. A modernidade se construiu sob o mito da razão: a luz da razão dissiparia para sempre as trevas do misticismo pré‑científico; munido com a arma da racionalidade o homem moderno avançaria seguro em direção ao futuro glorioso da democracia, da produção ilimitada de bens para todos, e finalmente, o irracional seria superado... Hoje esta crença está em crise. Para uns, é uma crise definitiva: estaríamos no esgotamento de um paradigma e na emergência de um outro diverso. Para outros, a crise deve ser entendida não como fim, mas como processo dialético de superação. De um lado e de outro pairam dúvidas. Uma certeza, porém, se impõe: o tema número um da agenda, nesse início de milênio é a cultura. 0 conceito que até agora melhor expressa a nova tendência é o de "pós‑modernidade". Sob esse conceito se inscreve uma nova sensibilidade cultural que, a seguir, enquadraremos em oito características. A PÓS‑MODERINIDADE O tempo e o termo pós‑modernidade é ambíguo. Uns o proclamaram como uma nova era, um novo espírito epocal. A modernidade teria se esgotado e sua aventura racional criadora teria chegado ao fim; agora, sem alma, ela se deixa dominar pela rotina, repetição, cópia, consumo. Os que compartilham desta visão entendem que todas as articulações (econômicas, políticas, culturais....) que acompanham a modernidade estão definitivamente enrijecidas, cadavéricas. Estaríamos assim diante de um "ponto de mutação" e de um novo paradigma científico (Fritjof Capra) diante de uma "nova onda", fruto da revolução tecnológica, sobretudo na área da informática (Alvin Toffler); diante de uma sociedade sem interioridade, onde tudo e transparência e visibilidade imediata (Jean Baudrillard). Diante, ainda, de uma sociedade pós‑industrial em que se dispensaria o recurso às grandes "narativas legitimadoras", tais como a emancipação do gênero humano (iluminismo) e a autobiografia do espírito (Hegel), para justificar e legitimar o conhecimento e a ação e estaríamos passando para um tempo próprio de "jogos de linguagem", com objetivos não abstratos, mas de conhecimento funcional‑prático, traduzido em "quantidade (bits) de informação" Lyotard); diante de uma época de eterno retorno do mesmo (Nietzsche) diante de uma época em que o "Eu" integral deixa lugar ao "Eu" dividido, fragmentado e esquizofrênico (Deleuze‑Guatari). Em todos estes pensadores e outros (Foucault, Camus. Kafka, Derrida, Escola de Frankfurt...), a crítica se desenvolve em duas direções básicas: houve uma perversão dos ideais da modernidade ou um esgotamento desses ideais. Todos concordam numa premissa: a modernidade parece estar fora de moda.Noutro campo se situam aqueles que postulam ser a pós-modernidade a retomada de ideais e princípios esquecidos ou ainda não levados a efeito pela modernidade. Nesse sentido, o pós‑moderno não seria tão "pós" como se pretende. Estes estão de acordo quanto a novas tendências emergentes, porém não acreditam ser correta a postulação de um "novo espírito epocal", de algo radicalmente novo que precisássemos, para descrevê‑lo, criar um termo que sugere uma cesura epocal, qualitativa, entre o mundo moderno e nossa própria atualidade. Todas as tendências 'pós‑modernas' podem ser encontradas de modo pleno ou embrionário na própria modernidade. Esta tendência não vê na crítica à modernidade senão à própria modernidade em movimento, completando o seu projeto. Habermas situa‑se nesta tendência. Para ele a modernidade não e um projeto falido, mas um projeto inacabado, como sugere o titulo de uma obra sua, datada de 1980: 'Modernidade, um projeto inacabado", Para Habermas não se trata de negar a modernidade, mas de completar o seu projeto através de um novo paradigma, o da racionalidade comunicativa. Habermas é crítico da modernidade mas a sua critica é elaborada desde dentro.Essa discussão ainda está em aberto. Não é nossa intenção tomar posição a favor ou contra. O que pretendemos é apenas constatar e apresentar o que se apresenta como características daquilo que aparece sob o rótulo de “pós-modernidade”. 1. Fim da idéia de progresso e da História A modernidade foi o tempo por excelência das grandes utopias sociais: os ilustrados acreditavam na vitória da razão sobre a ignorância e a servidão, através da ciência: os capitalistas acreditavam alcançar a felicidade através da racionalização das estruturas da sociedade e do incremento da produção de bens. Os socialistas sonhavam com a emancipação do proletariado e com ele o fim da exploração do homem pelo homem. Em todos havia a esperança de um futuro promissor. A pós‑modernidade não crê no progresso na sua possibilidade. O mundo é cruel e duro e não há mais esperança de poder mudá-lo. As experiências históricas foram desastrosas. Hirochima e Nagazaki são frutos diretos do progresso. Que progresso é esse e a que leva?. O pós‑moderno é desencanto quanto ao futuro.Ao lado do mito do progresso, cai o mito da história. Para os modernos a história tem uma conexão interna e uma finalidade última a alcançar. Hegel postulava a história como o desenvolvimento do Espírito Absoluto que lhe garante coerência e racionalidade. Marx supunha uma conexão entre a sociedade primitiva, escravocrata, feudal, capitalista e, finalmente, a comunista. Essa visão de um curso unitário da história já não faz sentido para o pós‑moderno. A história é para ele uma ilusão que desapareceu. 0 mundo é construído por uma multidão de átomos individuais que estão juntos por casualidade. Na realidade o que há são acontecimentos sem nenhuma conexão entre si. Já não existe caminho único e unitário para a história. Estamos diante de uma encruzilhada e, quem sabe, até de um labirinto: muitos caminhos se entrecruzam sem conduzir a lugar algum. (o problema das biografias, das histórias particulares, da vida privada é que faz sucesso).A atitude pós‑moderna, frente a essa desesperança de sentido e de objetivos últimos, não e de tragédia. Para o pós‑moderno o niilismo não é trágico. Sem porto para chegar, simplesmente flutua‑se apreciando as maravilhas do mar. A atitude fundamental é: se não há futuro, vive‑se hedonisticamente o presente. As flores não são para os funerais. 2. Hedonismo e "ressurreição da carne" Se não há porque se pôr em marcha para uma terra prometida, então é preciso voltar para casa e desfrutar da vida. Ganha relevância o culto do "eu", o intimismo, Perdida a esperança e a confiança na construção de um projeto global, resta concentrar‑se na realização pessoal. A manifestação disto é a crescente preocupação pela saúde que se mostra na obsessão por terapias pessoais ou de grupos, os exercícios corporais, massagens, saunas, dietética macrobiótica, bioenergia, etc.No mundo do homem o gozo passa a ser o alfa e o ômega, princípio e fim. Nesse sentido poderíamos dizer que ocorre uma verdadeira ressurreição da carne. Em suma, passasse de uma sociedade prometeica para uma sociedade narcisística 3. Fim do imperativo categórico Na seqüência lógica do postulado do fim da história e das grandes utopias sociais, advém o fim da ética e da moral de princípios típicos de projetos a longo prazo. Decorre disso que "não se aceita mais a moderna moral da formiga de La Fontaine. Pretende‑se viver o tempo da cigarra, (da gratuidade, da emoção, da irreflexão livre “ .Sem história a construir, cai o dever e a obrigação moral. Sem projetos pelos quais vale a pena sacrificar a vida, cada um pode fazer o que bem entender. Vivendo uma moral de oportunidade descomprometida. A estética substitui a ética. Tem valor imperativo o que é atraente e agradável (obs. até pouco tempo o relógio que todos queriam era o Quartz pois era exato. Hoje todos os relógios são exatos e então a escolha cai sobre o desing) . 0 princípio ético mais importante é: faça o que quiser. 0 principio da realidade e sacrificado em favor do principio do prazer. Freud fica invertido. Nada mais e proibido. Vale o principio dos jovens de 1968: "é proibido proibir". Viva feliz é o único imperativo categórico. 4. Do "penso, logo sou”, para o "sinto, logo sou" A modernidade se caracteriza em última análise pela racionalidade. A grande deusa moderna é a razão. Na pós‑modernidade o “homo sapiens" tem deixado lugar para o “homo sentimentalis”. Milan Kundera, pós-moderno na área da literatura, assim se expressa: "Penso, logo existo é uma afirmação de um intelectual que subestima as dores de dente. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais amplo e que concerne a todo ser vivo. Meu eu não se distingue essencialmente do seu eu pelo pensamento. Muitas pessoas, poucas idéias: pensamos todos mais ou menos a mesma coisa. Mas. se alguém pisa meu pé, só eu sinto a dor... Por isso sinto, logo sou e uma verdade muito mais geral". A razão está em declive deixando lugar para a sensibilidade e a subjetividade. Nietzsche dizia: "É só dos sentimentos que vêm toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade". 5. Niilismo sem tragédia O homem moderno se aventura na procura racional de fundamentação, de autocompreensão através de grandes doutrinas e teorias com pretensão de totalizantes. O pós‑moderno nega em bloco esses grandes discursos da modernidade, sem contrapor‑lhe outros. pois seria entrar na mesma dinâmica. Nega‑se com indiferença.Para o pós‑modemo todo o conhecimento é débil, limitado. Por isso mesmo não é possível encontrar um sentido único e totalizante para a vida. Além do que, dizem os pós‑modernos, toda a pretensão é totalitária por querer ganhar os demais e obrigar a entrar na sua verdade que se pretende universal. Paia a pós‑modernidade, a modernidade se instala sob o terror e a violência, pois não admite a diferença e muito menos a alteridade. A pos-modernidade é tolerante para com aqueles que pensam de modo diferente.Para a pós‑modernidade as lógicas explicativas são múltiplas e contraditórias entre si. E não vê problema nisso. Não é trágico por causa disso. Guia‑se por esferas regionais de sentido sem tentar se agarrar a verdades absolutas. Decorre daí uma atitude e um indivíduo fragmentado resultante de uma mescla de compreensões, virtudes, ações. 0 indivíduo pós‑moderno "não se agarra a nada, não tem certezas absolutas, nada o surpreende e suas opiniões são suscetíveis de modificações rápidas. Passa a outras coisas com a mesma facilidade com que troca de detergente". 6. Da tolerância à indiferença A modernidade acreditava que pela confrontação de posições chegava‑se a um consenso em torno da verdade, da justiça do bem. 0 pós‑moderno não acredita nessa possibilidade e sequer a deseja. Nietzsche é paradigmático: "meu juízo é meu, outro qualquer dficilmente o poderá reclamar. Devemos livrar-nos do mau gosto de querermos estar de acordo com muitos. Bom deixa de ser bom quando dito pelo vizinho. E como é que poderia haver um 'bom comum'?".. Assim, a pós‑modernidade se nega a discutir opiniões. A sua máxima é: viva e deixe viver. É nesse sentido que se passa da tolerância à indiferença. "Se nada tem sentido, tudo também pode ter e a tolerância se transforma em indiferentismo, onde não vale a pena nenhum debate e nenhuma idéia deve ser discutida, pois os argumentos não têm valor, só os sentimentos, que são confundidos e identificados com as sensações". 7. O retorno aos bruxos Com o destrono da racionalidade a pos-rnodernidade retorna ao religioso reprimido. Somente que agora o retorno se da de uma forma selvagem. A modernidade pregou a morte de Deus e com isso favoreceu a descrença em tudo. A reação pós‑moderna vai ao outro extremo. Agora acredita‑se em tudo. Não é por nada que assistimos hoje a um autêntico "boon" de esoterismo e ocultismo (quiromancia, cartomancia, astrologia, vidência, cartas astrais, cabala, alquimia, pitagorismo, teosofia, espiritismo ... ) Na Europa e nos Estados Unidos os astrólogos registrados oficialmente são três vezes mais numerosos que todos os físicos e químicos juntos. Na França, por exemplo, na mais de 50.000 consultórios de pitonisas, videntes, cartomantes, etc. Nos Estados Unidos os astrólogos se aproximam a 175.000 e em várias universidades do país os estudantes têm solicitado cursos de astrologia. Na Itália, 12.000 astrólogos têm‑se constituído em sindicato. 8. O retorno a Deus A pos‑modernidade não só retorna aos bruxos, mas retorna também a Deus. 0 retorno a Deus, porém, não é nos moldes das grandes religiões, de estilo intelectualizado e rígido. Seguindo “lógicas múltiplas", como foi dito acima, o indivíduo pós‑moderno é eclético do ponto de vista religioso. Assim uma sociedade pluralista torna possível que cada um tome seu coquetel religioso beliscando um zesto de Islã, uma pitada de judaísmo, algumas migalhas de cristianismo, um traguinho de nirvana, sendo possível todas as combinações, inclusive, para ser verdadeiramente ecumênico, acrescentando uma pitadinha de marxismo, ou criando para si um paganismo sob medida. Abertura universal. simpatia universal. O retorno a Deus se dá, portanto, de uma forma "light", sem militância e obrigação de coerência com a doutrina defendida. o retorno é de cunho espiritualizante e por isso rechaça as religiões intelectualizadas e que exigem compromissos institucionais. A religião propícia para essa postura é a que trabalha mais a nível estético e emocional, de tipo pentecostal e carismático. CONCLUSÃO Vale aqui uma máxima de Espinoza: "nem rir, nem chorar, compreender". Não se trata de tirar conclusões apressadas. Não se trata de fazer juízo de valor simplificado. Não se trata de tomar partido pró ou contra. Antes, pelo contrário, trata‑se de compreender o fenômeno em processo. Será problemático e nada prudente tomar a posição (irônica) do grande Nelson Rodrigues: "Se os fatos desmentirem as nossas idéias, pior para os fatos". Importa, num momento de ebulição, aguçar a percepção e fazer um esforço de compreensão. Só assim podemos influenciar positivamente na realidade. Seja para reforçar o existente, seja para mudá‑lo.
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